Algumas Obsessões
Fabricio
Um presente para meus leitores
Esta semana
resolvi presentear meus leitores com o que posso dar-lhes de melhor: minha
própria ausência - ainda que relativa.
Nas linhas
abaixo segue uma tosca tradução - feita por mim mesmo - de algumas páginas
que estão "entre as mais prazerosas e naturais de Diderot", segundo
André Billy (ver mais detalhes aqui).
O original
deste texto pode ser encontrado aqui.
Por mais
que algumas das críticas de Diderot fossem duras (ver por exemplo: 1 2), ele jamais apelou
para críticas destrutivas para fazer sucesso.
P.S.: meus
mais sinceros agradecimentos à Flavia Ballvé-Boudou, também colunista
do Tsc,Tsc,Tsc, pela ajuda na tradução. Obrigado mesmo!
Arrependimentos sobre meu roupão
ou
Conselhos àqueles que têm mais gosto
que riqueza
por Denis Diderot
Por que não o guardei? Ele era
feito para mim, eu era feito para ele. Ele se moldava a todas as dobras do
meu corpo sem incomodá-lo; eu era pitoresco e belo. Não havia nenhum desejo
ao qual a sua indulgência não se prestasse; isto porque a indigência é quase
sempre extra-oficial. Um livro estava coberto de poeira, e um de seus panos
se oferecia para limpá-lo. A tinta se espessava e se recusava a caminhar na
minha pena, e ele apresentava seu flanco. Via-se nele, traçado em longos raios
negros, os freqüentes trabalhos que ele me tinha feito. Esses raios longos
anunciavam o literato, o escritor, o homem que trabalha. Hoje em dia tenho
o ar de uma vagabundo. Não se sabe quem sou.
Sob o seu abrigo, eu não temia
nem a falta de jeito de um criado, nem a minha, nem os estilhaços do fogo,
nem o derramamento da água. Eu era o senhor absoluto do meu velho roupão;
tornei-me escravo do novo. O dragão que vigiava a lã de ouro não era mais
inquieto que eu. A preocupação me cerca, me domina.
O velho apaixonado que se entrega,
pés e punhos amarrados, aos caprichos, à mercê de uma jovem louca, diz desde
a manhã até a noite: "Onde está minha boa, minha velha governanta? Que
demônio me cegou no dia em que eu a expulsei por esta aqui?" Depois ele
chora, ele suspira.
Eu não choro, eu não suspiro; mas
a cada instante digo: maldito seja aquele que inventou a arte de dar um preço
ao tecido comum ao tingi-lo de escarlate! Maldita seja a preciosa vestimenta
que venero! Onde está meu antigo, meu cômodo trapo? Meus amigos, guardem seus
velhos amigos. Meus amigos, temam a chegada da riqueza. Que o meu exemplo
os instrua. A pobreza tem suas franquezas, a riqueza tem seus constrangimentos.
Ó Diógenes! Se você visse o seu
discípulo sob o faustoso manto de Aristipo, como você riria! Ó Aristipo, este
manto faustoso foi pago com um bom número de baixezas. Que comparação entre
a sua vida covarde, rasteira, afeminada, e a vida livre e sólida do cínico
andrajoso! Eu deixei o barril onde reinava para ser submisso a um tirano.
Isso não é tudo, meu amigo. Escute
os efeitos nocivos do luxo, as conseqüências de um luxo importante.
Meu velho roupão era um entre os
outros velhos cacos que me cercavam. Uma cadeira de palha, uma mesa de madeira,
uma tapeçaria de Bergame, uma tábua de pinheiro que sustentava alguns livros,
algumas estampas enegrecidas pelo tempo, sem moldura, pregadas pelos cantos
sobre esta tapeçaria; entre estas estampas, três ou quatro gessos suspensos
faziam, com meu velho roupão, a indigência mais harmoniosa.
Tudo está em desacordo. Não há
mais conjunto, não há mais unidade, não há mais beleza.
Uma nova governanta estéril que
sucede alguém num presbitério, a mulher que entra na casa de um viúvo, o ministro
que substitui outro ministro com a reputação arruinada, o prelado molinista
que se apodera da diocese de um prelado jansenista não causam mais problemas
que o escarlate intruso causou na minha casa.
Eu posso suportar sem desgosto
a vista de uma camponesa. Este pedaço de pano grosseiro que cobre sua cabeça;
esta cabeleira que cai esparsa sobre suas bochechas; estes farrapos esburacados
que a vestem pela metade; esta má roupa de baixo que só vai até a metade de
suas pernas; estes pés nus e cobertos de lama não podem me machucar: é a imagem
de um estado que respeito; é o conjunto de desgraças de uma condição necessária
e infeliz que eu lamento. Mas meu coração dispara; e, apesar da atmosfera
perfumada que a segue, eu afasto os meus passos e desvio o olhar desta cortesã
com penteado a pontos da Inglaterra, e os punhos esgarçados, as meias e os
sapatos sujos me mostram a miséria do dia associada à opulência da véspera.
Tal teria sido meu domicílio, se
o escarlate imperioso não tivesse colocado tudo sob seu uníssono.
Eu vi a Bergame ceder a parede, na qual ela estava
há tanto tempo ligada, ao forro de tecido adamascado.
Duas estampas que não eram sem
mérito: "O maná no deserto", de Poussin, e "Esther diante de
Xerxes", também dele; uma vergonhosamente expulsa por um ancião de Rubens,
que é a triste Esther; a "maná" dissipada por uma "Tempestade"
de Vernet.
A cadeira de palha largada na antecâmara
pelo sofá de couro de luxo.
Homero, Virgílio, Horácio, Cícero,
socorrer a fraca peça de pinheiro curvada sob sua massa, e se fechar num armário
ricamente ornado, asilo mais digno deles do que de mim.
Um grande espelho se apoderar da
coifa da minha lareira.
Estes dois lindos gessos que obtive
graças à amizade de Falconet, consertados por ele mesmo, deslocados por uma
Vênus agachada. A argila moderna destruída pelo bronze antigo.
A mesa de madeira ainda disputava
terreno, a salvo por uma multidão de brochuras amontoadas desordenadamente
e que pareciam ter o dever de subtraí-la muito tempo do destino cruel que
a ameaçava. Um dia ela teve a sua sorte selada, e, apesar da minha preguiça,
as brochuras e os papéis foram se enfileirar nas garras de uma escrivaninha
preciosa.
Instinto funesto de conveniências!
Tato delicado e ruinoso, gosto sublime que muda, que desloca, que edifica,
que inverte; que esvazia os cofres dos pais; que deixa as filhas sem dote,
os filhos sem educação; que faz tantas coisas belas e tão grandes males, você
que substituiu na minha casa a fatal e preciosa mesa de madeira; é você quem
perde as nações; é você que, quem sabe um dia, conduzirá todos os meus pertences
sobre a ponte Saint-Michel, onde vai se ouvir a voz rouca de um juiz gritar:
uma Vênus agachada por vinte luíses.
Havia um ângulo vazio ao lado da
minha janela. Este ângulo pedia uma secretária, que ele acabou obtendo.
Outro vazio desagradável, entre
a prancheta da secretária e o belo retrato de Rubens, foi preenchido por dois
La Genée.
Aqui está uma Madalena do mesmo
artista; ali, um esboço de Vien ou de Marchy; por que eu também me interessava
em esboços. E foi assim que o reduto edificante do filósofo se transformou
no gabinete escandaloso do publicano. Eu insulto assim a miséria nacional.
Da minha mediocridade inicial,
só restou um tapete franjado. Este tapete mesquinho não combina com meu luxo,
eu o sinto. Mas eu jurei e eu juro, já que os pés de Denis o filósofo jamais
pisarão numa obra-prima da Savonnerie (*),
que eu manterei comigo este tapete, assim como um camponês transferido de
sua palhoça para o palácio de seu soberano guarda seus velhos sapatos. Quando,
de manhã, coberto com o suntuoso escarlate, eu entro em meu gabinete, se abaixo a vista percebo o meu velho tapete franjado;
ele me lembra meu primeiro estado, e a vaidade pára na entrada do meu coração.
Não, meu amigo, não: eu não estou
corrompido. Minha porta se abre sempre à necessidade daquele que me procura;
ele me encontra com a mesma afabilidade. Eu o escuto, o aconselho, o socorro,
me apiedo dele. Minha alma não se endureceu; meu nariz não se empinou. Minhas
costas estão boas e redondas, como continuarão a estar daqui em diante. É
o mesmo tom de franqueza; é a mesma sensibilidade. Meu luxo é de data recente
e o veneno ainda não agiu. Mas com o tempo, quem sabe o que pode acontecer?
O que esperar daquele que deixou de lado sua mulher e sua filha, que se endividou,
que cessou de ser esposo e pai, e que, ao invés de deixar no fundo de um cofre
fiel, uma soma útil...

Ó, santo profeta! Levante sua mão
ao céu, reze por um amigo em perigo, diga a Deus: se você vir nos seus decretos
eternos que a riqueza vai corromper o coração de Denis, não poupe as obras-primas
que ele idolatra; destrua-as e o reconduza à sua primeira pobreza; e eu direi
ao céu de minha porta: ó Deus! Eu me resigno à oração do santo profeta e à
sua vontade! Eu lhe abandono tudo; sim, tudo, com exceção do Vernet. Ah, me
deixe o Vernet! Não é o artista, é você que o fez. Respeite a obra da amizade
e a mantenha. Veja este farol, veja esta torre adjacente que se ergue à direita;
veja esta velha árvore que os ventos despedaçaram. Como esta massa é bela!
Abaixo desta massa obscura, veja estes rochedos cobertos de vegetação. É assim
que sua mão possante os formou; é assim que sua mão benfeitora os revestiu.
Veja esta esplanada desigual, que desce dos pés dos rochedos até o mar. É
a imagem das degradações que você permitiu que o tempo exercesse sobre as
coisas mais sólidas do mundo. O seu sol teria iluminado de outro modo? Deus!
Se você destruir esta obra, dir-se-á que você é um Deus ciumento. Tenha piedade
dos infelizes esparsos sobre esta margem. Não é suficiente para você ter-lhes
mostrado o fundo dos abismos? Você só os salvou para perdê-los? Escute a súplica
deste que lhe agradece. Ajude os esforços daquele que reúne os tristes restos
de sua fortuna. Feche os ouvidos para as imprecações deste furioso: que pena!
Ele se prometeu retornos tão vantajosos! Ele tinha pensado no repouso e na
aposentadoria, ele estava na sua última viagem. Cem vezes a caminho, ele calculou
por seus dedos o fundo de sua fortuna, ele tinha arranjado emprego para ela:
e, então, todas suas esperanças foram frustradas; mal lhe restou o que lhe
cobrisse os membros nus. Seja tocado pela ternura destes dois esposos. Veja
o terror que você inspirou a esta mulher. Ela lhe rende graças pelo mal que
você não lhe fez. Entretanto, seu filho, muito jovem para saber do perigo
a que você lhe expôs, e também a seu pai e a sua mãe, se ocupa do fiel companheiro
de viagem; ele segura a coleira de seu cachorro. Tenha piedade do inocente.
Veja esta mãe que acabou de sair das águas com seu esposo; não é por ela mesma
que ela tremeu, mas por seu filho. Veja como ela o abraça contra seu seio;
veja como ela o beija. Ó Deus! Reconheça as águas que você criou. Reconheça-as,
quando seu sopro as agita, e quando sua mão as pacifica. Reconheça as nuvens
sombrias que você juntou, e que lhe agradou dissipar. Assim que elas se separam,
elas se distanciam, e o clarão do astro do dia renasce sobre a face das águas;
eu pressagio a calma neste horizonte avermelhado. Como é distante, este horizonte!
Ele não se confina com o mar. O céu desce mais abaixo e parece girar em volta
do globo. Acabe de clarear este céu; acabe de devolver ao mar sua tranqüilidade.
Permita a estes marinheiros fazer o seu navio afundado navegar novamente;
ajude o seu trabalho; dê-lhes forças, e deixe a mim o meu quadro. Deixe-me,
como a vara que com a qual você castigará o homem vão. Já não sou eu que sou
visitado, é o Vernet que as pessoas vêm admirar na minha casa. O pintor humilhou
o filósofo.
Ó meu amigo, o belo Vernet que
eu possuo! O motivo é o fim de uma tempestade sem uma catástrofe desagradável.
As águas ainda estão agitadas; o céu coberto de nuvens; os marinheiros se
ocupam de seu navio afundado; os habitantes acorrem das montanhas vizinhas.
Como este artista tem espírito! Não lhe foi necessário mais do que um pequeno
número de figuras principais para juntar todas as circunstâncias do instante
que ele escolheu. Como toda esta cena é verdadeira! Como tudo está pintado
com ligeireza, facilidade e vigor! Eu quero guardar este testemunho de sua
amizade. Eu quero que meu genro lhe
transmita a seus filhos, e estes aos filhos que nascerão deles.
Se você visse o belo conjunto deste
pedaço; como tudo ali está harmonioso; como as causas e conseqüências se encadeiam;
como tudo se faz valer sem esforço e sem preparo; como estas montanhas da
direita são vaporosas; como estes rochedos e os edifícios sobre eles são belos;
como esta árvore é pitoresca; como esta esplanada é iluminada; como a luz
se degrada; como estas figuras são dispostas, verdadeiras, agitadas, naturais,
vivas; como elas interessam; a força com a qual elas são pintadas; a pureza
com a qual elas são desenhadas; como elas se destacam do fundo; a enorme extensão
deste espaço; a verdade destas águas; estas nuvens, este céu, este horizonte!
Aqui o fundo é privado de luz e a frente é iluminada, ao contrário
da técnica comum. Venha ver meu Vernet. Mas não mo subtraia.
Com o tempo, as dívidas serão quitadas;
o remorso se acalmará; e eu terei uma satisfação pura. Não tema que o furor
de amontoar belas coisas me domine. Os amigos que eu tinha, ainda tenho; e
o número não aumentou. Eu tenho Laïs, mas ela não me tem. Feliz entre seus
braços, estou prestes a cedê-la àquele que eu amarei e que ela tornará mais
feliz que eu. E para lhe dizer meu segredo ao ouvido, esta Laïs, que se vende
tão cara aos outros, não me custou nada (**).
(*) tapetes de
extraordinária qualidade fabricados por uma manufatura estabelecida no século
XVII numa velha fábrica de sabonetes (a palavra Savonnerie significa, em francês, fábrica de sabonetes).
(**) André Billy
colocou neste ponto uma nota segundo a qual Diderot pagou vinte e cinco luíses
a Vernet pela sua Tempestade,
apesar do texto dizer o contrário. Laïs era um nome de várias cortesãs gregas,
o que confundia muitas pessoas.

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